Teoria Geral do Fracasso II, ou a Invasão dos Bárbaros
Você acorda e o mundo nem sempre é o que você espera, ele se apresenta dentro de uma certa verdade, te engana. Quase nunca o mundo é redondo daquele jeito que a gente pensa as coisas circulares.
Circularidade é uma forma que me apaixona, que me comove. A fecundidade é circular, faz nascer coisas que nos alimentam as esperanças, a história é circular, uma roda que não se parte. Eu gosto dessas coisas femininas. Fortaleço-me nelas.
Hoje eu acordei querendo escrever sobre algo que me comova, sei que não posso mudar o mundo, nem destruí-lo como ele se apresenta. Eu ao menos queria deslocá-lo, rompê-lo, tocar em algumas peças... Queria movê-lo. Tenho como ferramentas a guerra, a política e a escrita. Preciso fazer algo.
A escrita, eu sei, é um recurso muito limitado, é como um véu de fumaça que se dissipa ao simples sopro da história. A escrita não serve para nada, é inútil para o pragmatismo do mundo.
Como sonhar com um mundo novo? De todo modo, eu arremesso verbos ao futuro enquanto repouso abrindo caminhos com picaretas.
O país está fervendo por dentro. Uma erupção de dívidas abafadas promete explodir sem descanso. É o descaso recebendo a conta.
A rebelião se espalha, várias rebeliões, tá todo mundo incomodado, algo gesta-se no circulo histórico que nos trouxe a América. Bom, todo mundo é brasileiro, mas nessas horas os brancos se auto atribuem pela tela da televisão... E os pretos? Bom, os pretos sabem que podem ser mortos na guerra, como suspeitos.
Uma rebelião de bárbaros se instalou em São Paulo, bárbaros pretos, furiosos e armados. A rebelião é como um rastro de pólvora e se espalha, o medo se espalha, o terror se espalha. E o Estado dominado pelos brancos se prepara. A rebelião não começou agora, todos e todas sabemos.
O Estado brasileiro pode, com os recursos fabulosos das miragens da imprensa, matar sem incomodo os seres humanos dispensáveis. Agora nos chamam de suspeitos e metem bala, agora se aprovam leis que nos mantêm no mais profundo confinamento. Agora todo mundo se cala.
“O movimento negro fracassou”! É o que me diz ao ouvido um militante desses que surgem entre as cifras que a miséria lança. Ele também está temeroso do regime de exceção que vai se montando às pressas no Congresso Nacional.
O Viva Rio, O Sou da Paz, até Suzana Varjão e todos os outros grupos de brancos que defendem os “seus” direitos humanos falam timidamente na necessidade de políticas sociais, recomendam à polícia cautela para evitar excessos e é só. Calam-se ante o processo de extermínio contra a população negra que nós bradamos aos quatro cantos do País.
Existe uma lógica racista e truculenta de segurança pública desde que o Brasil Colônia resolveu explorar os antepassados desses bárbaros de tênis Nike e boné de jogador de golfe, esses guerreiros de calças folgadas compradas no camelô, esse povo preto que não tem idéia do quanto de cifrões o crime movimenta entre uma tragada e outra de whisky importado na mesa dos engravatados de colarinho branco e olhos azuis.
O movimento negro nacional fracassou porque não apareceu nos noticiários apresentando suas razões e análises da crise, da insurreição dos bárbaros.
Nós somos os novos bárbaros!
“O sistema prisional vai explodir”! Mero engodo, já estamos sobre os estilhaços do sistema penitenciário há muito tempo. É um sistema que não serve para nada do ponto de vista de manter alguma proteção ou segurança. Depositam-se seres humanos nessas câmaras úmidas e infectadas, impõem maus tratos, trabalhos forçados, dietas de ratos, controle sobre suas almas, loucura e perversão, negam-lhe direitos constitucionais evocados a cada hasteamento de bandeira e esperam que esses seres humanos não se rebelem, que não se insurjam. Esperam que não apodreça algum bocado de esperança em seu peito e lá nasça muito ódio.
O sistema prisional já mandou tudo pelos ares, a explosão foi calculada para justificar a pena capital e parece que muita gente de boa vontade não está atenta para isso.
As ações humanitárias que eu vejo nas cadeias e presídios são tímidas, não pretendem mudar o sistema carcerário. Querem salvar almas. Os presos e as presas se lixam para suas almas, querem é transpor os muros, não têm asas, nem advogados como os de Pimenta Neves, Ubiratã Guimarães ou da Escuderia Le Coq. Aos presos comuns resta cavar buracos ou tomar reféns.
O movimento negro fracassou por não ocupar as varas de execuções penais, os tribunais, o Supremo Tribunal Federal. Todos espaços ocupados pelos brancos, os mesmos que instituem nosso controle com mão pesada, uma mão que carrega uma certa balança da justiça, uma balança adulterada. Para a justiça brasileira nossa morte não pesa.
O governador de São Paulo, Cláudio Lembo, criticou a burguesia branca pelas conseqüências dos atuais ataques. Ele não fala, é claro, das históricas execuções sumárias praticadas pela polícia contra o povo preto.
Depois da autocrítica, Lembo foi dormir em seu condomínio blindado, com suas roupas de “pequeno burguês soberbo” enquanto sua polícia, que ele defende dizendo que “age dentro da legalidade”, mata pessoas como se fossem insetos, em cima de simples suspeitas. Os caciques do PFL, herdeiros cotistas das companhias hereditárias, legalizam a lei marcial no país, a licença para matar, deixando à vontade os vândalos oficiais para desfilarem com as insígnias dos grupos de extermínio, o mais notório deles, o esquadrão da morte.
Se for para combater o crime organizado, temos que reformular a polícia, controlá-la, tirar-lhe a arrogância de tratar os pretos como sub-gente.
Se for para isolar os chefes das facções criminosas, temos que tirar de circulação gente do quilate de Romeu Tuma, ACM e seu neto estúpido. E o que falar do Coronel Eliezer Éclair que tem que prestar contas dos atos de vingança de suas tropas contra nós.
“Fracassados somos nós”? Pergunto-me, refletindo sobre os argumentos de meu interlocutor que acha que somos atrasados por chamarmos a atenção para os crimes bárbaros cometidos pelo Estado. Por intervirmos no cotidiano de nossas comunidades discutindo política na acepção mais nobre da palavra política, por não acreditarmos na integração de milhões de miseráveis como nós, por não aplaudirmos a vergonhosa atuação dos negros na novela das seis que nos humilha, o programa de Gugu que nos enoja, o noticiário de todas as TVs que nos despreza. Por tentarmos fazer por nossa própria conta a trajetória de nossa liberdade.
Atrasados porque gritamos nas ruas, porque tomamos as ruas, porque desacreditamos em saídas negociadas para a nossa opressão, porque somos a ralé gritando, porque articulamos a ralé sorrindo e caminhando cheios de utopia pela cidade.
Nós paramos Salvador na sexta-feira dia 12 de maio de 2006, numa marcha pela vida. No mesmo dia, o PCC parou São Paulo e instrumentalizou os brancos a produzirem leis para nossa morte. Podemos parar o país para que se rompa a bolha que nos mantém submissos, prontos para o abate, como semoventes políticos no pasto do poder, aceitando migalhas.
Estamos movendo a roda, temos uma tecnologia política de sonho suado na batalha. Uma imaginação política nova é a engrenagem que nos levará a vitória.
Hamilton Borges Walê
Movimento Negro